meu tom
não faça idéias erradas de mim.Eu nunca sonhei com você Nunca fui ao cinema Não gosto de samba Não vou a Ipanema Não gosto de chuva Nem gosto de sol E quando eu lhe telefonei Desliguei, foi engano O seu nome eu não sei Esqueci no piano As bobagens de amor Que eu iria dizer Não, Ligia, Ligia Eu nunca quis tê-la ao meu lado Num fim de semana Um chope gelado Em Copacabana Andar pela praia até o Leblon E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão O seu nome rasguei Fiz um samba-canção Das mentiras de amor Que aprendi com você Ligia, Ligia Você se aproxima de mim Com esses modos estranhos E eu digo que sim Mas seus olhos castanhos Me metem mais medo Que um raio de sol Ligia, Ligia.[Antonio Carlos, maestro soberano]
trabalho em equipe
se avia, moemaque a loucura é nossa.
modern sound
eu gosto do mauro senise.Aqui jazzSuado, babando
Os pêlos todos do meu peito em pé
e eu te aliso
Cantando de leve tuas notas.
E o que virá depois
É sopro, solfejo
Que adivinho sem ler a pauta
Nada comigo é ditado
Sou homem direto, burro
Resfolegando
Teu corpo absoluto, minha vodka
- martini não, que é coisa de viado -
Um peito duro contra minha coxa
Meu sax na mão
(Alto, altíssimo)
Entoa a pele negra da tua postura
- pérola não que é coisa de viado -
Sou teu macho, tua pica
Teu amor ideal que não desfaz as malas
Nem escova os dentes
Sou teu homem inchado, teso, grosso
Que não pensa em você, que não pensa
Que decide e nunca pergunta
Sou aquele que come porque está na mesa
Que molha os dedos no vinho barato
E chupa o que escorre e te mete com a esquerda
Segurando o garfo na mão que é mais forte
E de sobremesa, mais saciado, te pega de lado
Bem junto à parede
E te aperta macio, volume cheiroso
Metendo-lhe a faca, sorriso entre os dentes
E contente te mata, como que num gozo.janeiro / 2007
colegial
sempre fui mais da maria tereza weiss.Horário integral
Eu não sobreviveria sem a minha frustração. Que ânsia mais usada cairia tão bem sobre o manto agonizante desse ocre lavado, com cheiro de guardado, cachorro molhado, macarrão com salsicha, recreio, hora da saída que é o meu medo dessa vida? – Piiiiiiii! –
O sinal ecoou por todas as salas, meu bem, agudo, constante, disparado, melhor aluno de trocentos disciplinados eletrocardiogramas, dez, dez, dez. Incansável o piii nos ouvidos dos bedéis, pirralhos levados, aprendizes babões, cedeéfis brutos rompendo janelas de ferro com as mãos, honrando bravamente suas paixões não correspondidas, o gol não marcado, o zero a zero.
Esse filho-da-puta desse sinal, meu bem, ainda tilinta nos meus poucos neurônios, nas ínfimas terminações nervosas que não se mudaram desta cabeça-de-porco a que chamo meu corpo. Prédios podres crescendo sobre os tecidos moles da minha sobrecoxa, capas vertiginosas de gordura ácida, perfurada, indisposta. Toda sua, neném, toda sua. Toda bem passada, peitinhos mamulengos dançantes, antepasto gelatinoso original. Gosto de cabo de guarda-chuva, frescor de saliva morta, armazenada por falta de uso, já que falo muito pouco e provo quase nada.
Dez por um real, benzinho. Na promoção da Carioca, fim de tarde, leva Microsoft Office, Adobe, Photoshop e mais três pirulitos de chiclete, porque mulhé bonita não paga, mas também me leva. Maldita campainha de merda, não vai se calar nunca até que eu arranque essa peruca rouge dos meus sonhos. Tô alugando meu peito, há vagas para moços direitos que trabalhem honestamente e tenham pau grande.
Por favor telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente. O sinal... vai abrir, vai abrir. Por favor me esqueça, me esqueça, me esqueça, ó, Deus.janeiro/2007
feliz ano velho
fogos, fogos... estourando, bum.Non stopEsse futuro do pretérito é perfeito pra esse momento, essa sintaxe pra lá de amarrada na tua cintura, atravessando todo o seu peito, como a coroa de meu justo rei colorido igual a você. Me mim comigo e todos os pronomes reflexivos nem em tanto pensamento me desfazem da sua tensão oblíqua, seu nome reto, curto, seco, estrangeiro quase. Claras, raras tuas costas nuas, e é tudo tão feminino, tão enjoadamente doce e óbvio que com mais uma colher de chá eu teria um ataque de hipoglicemia. Tonta, tonta.
Era sair de casa e te encontrar em becos podres, cheirando a lojas caras do Leblon, banheiros curtidos de quase ouro, grandes espelhos. Era só te encostar com força na quina da porta, num mesmo escuro depois do piano cego, melodia gasta. Era só dizer eu quero, ovo sem clara, gema dura. Era tanto e tanto e agora... E agora? Agora, desaperto o pause e porca, gorda, suja devoro as pérolas de novo. Sim, todas negras.
Baby, bem sei...
janeiro/2007
princípio do recomeço
i would, my friend, fernando.A letra A do seu nomeAbre essa porta e entraNa mesma casa onde eu moroNa mesa que me alimentaA telha esquenta e cobreQuando de noite ela deitaA gente pensa que escolheSe a gente não sabe inventaA gente só não inventa a dorA gente que enfrenta o malQuando a gente fica em frente ao marA gente se sente melhorA abelha nasce e morreE a cera que ela engendraAcende a luz quando escorreDa vela que me orientaApenas os automóveisSem pernas se movem e ventamCerteza é o chão de um imóvelPrefiro as pernas que me movimentamA gente movimenta o amorA gente que enfrenta o malQuando a gente fica em frente ao marA gente se sente melhorA letra A[Nando Reis]
do armário
o nando reis é a mulher perfeita pra mim.Quis o doce, era tão doce, enjoouQuis voltar a péE quis mais, sem pensar no quanto custouQuis brigar por um motivo qualquerNem quis ouvir o recado, não o apagouQuis que eu cuspisse o chicleteQuis fazer uma surpresa pra mimMas não agüentouQuis beber água com uma colherAh, vou tão longe pra te entenderQuis sair pra jantar e só reclamouQuis me beijarE quis vestir meu casaco depois sentiu calorQuis eu jurasse ser só sua mulherQuis tanto aquele sapato depois o detestouE quis viajarQuis conversar com seu pai, então, como chorouQuis que eu fizesse um outro caféAh, vou tão longe pra te convencerDiz que me amaMas o que é que eu fizPorque há mais de uma semanaVocê está de má vontadeTudo o que eu digo parece bobagemApesar de achar que, em parteO que você diz é verdadeMas isso não é nenhum desastrePois nunca é tarde pra saberQue não há nada errado em sermos diferentes(Só somos diferentes)Sortimento[Nando Reis]
reprise
ainda tira onda.[ ]
Então eu passo o sal
aos teus cuidados
Pra que não caiam no chão
nem sobre a mesa
As brigas atômicas que disparam
Meu quadril nas tuas ancas
– e nossos dedos visitados –
Emergência diet.
É involuntário, Nestor
É ultrajante, Peçanha
É lastimável, Cerqueira
Mas só me sobram as batatas.
novembro / 2006