minha nêga não sabe o que eu sei

e olha que ela é bamba. ela gosta de samba, de maçã e de homens que entendam deus. ela tem duas tatuagens e gosta de sexo. ela mora no mar, mas não brinca na areia. ela tem medo de gente. ela tem vontade de gente. ela gosta de música. ela brinca com a aritmética do livro dos prazeres. a nêga cospe fogo, mas está em extinção. ela é minha e ela também sou eu.

lundi, janvier 29, 2007

meu tom

não faça idéias erradas de mim.

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos
E eu digo que sim
Mas seus olhos castanhos
Me metem mais medo
Que um raio de sol

Ligia, Ligia.

[Antonio Carlos, maestro soberano]

jeudi, janvier 25, 2007

trabalho em equipe

se avia, moema
que a loucura é nossa.

dimanche, janvier 21, 2007

modern sound

eu gosto do mauro senise.

Aqui jazz

Suado, babando
Os pêlos todos do meu peito em pé
e eu te aliso
Cantando de leve tuas notas.
E o que virá depois
É sopro, solfejo
Que adivinho sem ler a pauta

Nada comigo é ditado
Sou homem direto, burro
Resfolegando
Teu corpo absoluto, minha vodka
- martini não, que é coisa de viado -

Um peito duro contra minha coxa
Meu sax na mão
(Alto, altíssimo)
Entoa a pele negra da tua postura
- pérola não que é coisa de viado -

Sou teu macho, tua pica
Teu amor ideal que não desfaz as malas
Nem escova os dentes
Sou teu homem inchado, teso, grosso
Que não pensa em você, que não pensa
Que decide e nunca pergunta

Sou aquele que come porque está na mesa
Que molha os dedos no vinho barato
E chupa o que escorre e te mete com a esquerda
Segurando o garfo na mão que é mais forte
E de sobremesa, mais saciado, te pega de lado
Bem junto à parede

E te aperta macio, volume cheiroso
Metendo-lhe a faca, sorriso entre os dentes
E contente te mata, como que num gozo.


janeiro / 2007

vendredi, janvier 05, 2007

colegial

sempre fui mais da maria tereza weiss.

Horário integral

Eu não sobreviveria sem a minha frustração. Que ânsia mais usada cairia tão bem sobre o manto agonizante desse ocre lavado, com cheiro de guardado, cachorro molhado, macarrão com salsicha, recreio, hora da saída que é o meu medo dessa vida? – Piiiiiiii! –

O sinal ecoou por todas as salas, meu bem, agudo, constante, disparado, melhor aluno de trocentos disciplinados eletrocardiogramas, dez, dez, dez. Incansável o piii nos ouvidos dos bedéis, pirralhos levados, aprendizes babões, cedeéfis brutos rompendo janelas de ferro com as mãos, honrando bravamente suas paixões não correspondidas, o gol não marcado, o zero a zero.

Esse filho-da-puta desse sinal, meu bem, ainda tilinta nos meus poucos neurônios, nas ínfimas terminações nervosas que não se mudaram desta cabeça-de-porco a que chamo meu corpo. Prédios podres crescendo sobre os tecidos moles da minha sobrecoxa, capas vertiginosas de gordura ácida, perfurada, indisposta. Toda sua, neném, toda sua. Toda bem passada, peitinhos mamulengos dançantes, antepasto gelatinoso original. Gosto de cabo de guarda-chuva, frescor de saliva morta, armazenada por falta de uso, já que falo muito pouco e provo quase nada.

Dez por um real, benzinho. Na promoção da Carioca, fim de tarde, leva Microsoft Office, Adobe, Photoshop e mais três pirulitos de chiclete, porque mulhé bonita não paga, mas também me leva. Maldita campainha de merda, não vai se calar nunca até que eu arranque essa peruca rouge dos meus sonhos. Tô alugando meu peito, há vagas para moços direitos que trabalhem honestamente e tenham pau grande.

Por favor telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente. O sinal... vai abrir, vai abrir. Por favor me esqueça, me esqueça, me esqueça, ó, Deus.


janeiro/2007

feliz ano velho

fogos, fogos... estourando, bum.

Non stop

Esse futuro do pretérito é perfeito pra esse momento, essa sintaxe pra lá de amarrada na tua cintura, atravessando todo o seu peito, como a coroa de meu justo rei colorido igual a você. Me mim comigo e todos os pronomes reflexivos nem em tanto pensamento me desfazem da sua tensão oblíqua, seu nome reto, curto, seco, estrangeiro quase. Claras, raras tuas costas nuas, e é tudo tão feminino, tão enjoadamente doce e óbvio que com mais uma colher de chá eu teria um ataque de hipoglicemia. Tonta, tonta.

Era sair de casa e te encontrar em becos podres, cheirando a lojas caras do Leblon, banheiros curtidos de quase ouro, grandes espelhos. Era só te encostar com força na quina da porta, num mesmo escuro depois do piano cego, melodia gasta. Era só dizer eu quero, ovo sem clara, gema dura. Era tanto e tanto e agora... E agora? Agora, desaperto o pause e porca, gorda, suja devoro as pérolas de novo. Sim, todas negras.

Baby, bem sei...

janeiro/2007

vendredi, décembre 01, 2006

princípio do recomeço

i would, my friend, fernando.

A letra A do seu nome
Abre essa porta e entra
Na mesma casa onde eu moro
Na mesa que me alimenta
A telha esquenta e cobre
Quando de noite ela deita
A gente pensa que escolhe
Se a gente não sabe inventa

A gente só não inventa a dor
A gente que enfrenta o mal
Quando a gente fica em frente ao mar
A gente se sente melhor

A abelha nasce e morre
E a cera que ela engendra
Acende a luz quando escorre
Da vela que me orienta
Apenas os automóveis
Sem pernas se movem e ventam
Certeza é o chão de um imóvel
Prefiro as pernas que me movimentam

A gente movimenta o amor
A gente que enfrenta o mal
Quando a gente fica em frente ao mar
A gente se sente melhor

A letra A
[Nando Reis]

jeudi, novembre 30, 2006

do armário

o nando reis é a mulher perfeita pra mim.

Quis o doce, era tão doce, enjoou
Quis voltar a pé
E quis mais, sem pensar no quanto custou
Quis brigar por um motivo qualquer
Nem quis ouvir o recado, não o apagou
Quis que eu cuspisse o chiclete
Quis fazer uma surpresa pra mim
Mas não agüentou
Quis beber água com uma colher

Ah, vou tão longe pra te entender

Quis sair pra jantar e só reclamou
Quis me beijar
E quis vestir meu casaco depois sentiu calor
Quis eu jurasse ser só sua mulher
Quis tanto aquele sapato depois o detestou
E quis viajar
Quis conversar com seu pai, então, como chorou
Quis que eu fizesse um outro café

Ah, vou tão longe pra te convencer

Diz que me ama
Mas o que é que eu fiz
Porque há mais de uma semana
Você está de má vontade
Tudo o que eu digo parece bobagem
Apesar de achar que, em parte
O que você diz é verdade
Mas isso não é nenhum desastre
Pois nunca é tarde pra saber
Que não há nada errado em sermos diferentes
(Só somos diferentes)

Sortimento
[Nando Reis]

mercredi, novembre 22, 2006

reprise

ainda tira onda.

[ ]

Então eu passo o sal
aos teus cuidados
Pra que não caiam no chão
nem sobre a mesa
As brigas atômicas que disparam
Meu quadril nas tuas ancas
– e nossos dedos visitados –

Emergência diet.

É involuntário, Nestor
É ultrajante, Peçanha
É lastimável, Cerqueira

Mas só me sobram as batatas.

novembro / 2006